sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Crianças



Pequenos grãos de gente 
Favas que crescem em fa-fé-fi
Brotadas de um pé de feijão
Largo e rasgado sorriso banguela
Promessa trocada com fadas do dente
Os olhos que inundam por quase nada
Por quase tudo te fazem chorar
O brinquedo quebrado num canto da casa
Coberto de teia e cheio de pó
Carrega boas lembranças
De quando o silêncio não existia  
Ainda ouço os risos gagos dos dois
Que rasgam o meu disfarce de adulto
E mostram a criança imperfeita que sou
Percebo que somos os filhos eternos
E que brincamos disso todos os dias
Assim conseguimos ser mais felizes

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Leitor maluco


Um leitor maluco aponta a ponta do seu apontado nariz para dentro de um livro
e das folhas daquele livro despontam palavras que ele ainda não conhecia
e de lá surgem campos e planos que de fato nem existiam
mas o maluco, de tão maluco, tudo lê até o final da última frase
e por dentro de tudo que lê, viaja a lugares onde só as palavras dali estiveram
Mas que maluco que chora e ri, quando percebe sentir o que não fazia nenhum sentido,
Pensando que ali não estava, quando dali não havia saído.
Que maluquice de alguém que é maluco um tanto assim,
Que viaja parado e percorre distâncias que nunca cansam,
Que desvenda segredos misteriosamente ocultos dentro da sua própria cabeça
E que sonha acordado, quando o sono lhe parece estranhamente distante.
Mais maluco se mostra, que noutro livro mergulha a afiada ponta do seu nariz,
Um bom e velho nariz de maluco,
Que a todo maluco orienta, mirando seus olhos a tão diversos destinos.
Em todo livro que abre, ideias diferentes semeiam-lhe a mente.
Decide o maluco, por fim, dividir o seu pensar com outros malucos mais malucos do que ele.
E foi isso que fez o maluco
Apontando a ponta apontada do seu lápis de fino grafite às folhas de um caderno em branco...


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Saudade




Chama que arde no peito
Distância que não tem jeito
Ecoa com força na mente
E acaba com o sono da gente
Anseio maior que a verdade
Dor que se chama saudade

quarta-feira, 26 de março de 2014

Centro de Porto Alegre (ilustração de Carmem Jardim)


Centro de tantas calçadas
Marquises e portas pintadas
Funil de esquinas lotadas
Quietude em finais de semana
Saudades de um tal de Quintana
Catedrais de tantos pedidos 
Encontro de amantes sofridos
Praças da Alfândega e da Matriz
Mercado de um povo feliz
Retrato de um porto muito Alegre


sexta-feira, 14 de março de 2014

Verso





Fugindo do verso banal
Resisto á grafia correta
Ponho acento onde era crase
E três pontos no fim da frase ...

quarta-feira, 12 de março de 2014

Inspiração




Inspiração é erva daninha
Que invade o jardim da vida
Quando chega dissimulada
Dispondo-se em rima e verso
Penetra com seus espinhos
Nutre-se da sensibilidade
E devasta o coração do artista
A inspiração é erva que contamina
Desenvolve-se com a angústia
Cresce com a tristeza
E ofusca as raízes sadias

Eu já resolvi o meu caso
A minha plantei num vaso. 

Cores




Branco a serviço do nada,
Cursor piscando em tela vazia,
Matriz falida de argumento,
Mente estéril faltando cria,
Eclipse do pensamento.
Torpor...

Preto denso ausente de luz,
Esconde o que deveria ser visível,
Lado escuro do inconsciente,
Blackout de um sonho impossível,
Que arde num peito doente.
Dor...

Vermelho jorrando na veia,
Vertente infinita da alma,
Expansor da emoção
Espírito que não se acalma,
Energia básica da paixão.
Amor...

Verde anuncia o novo,
Desvenda os mistérios da vida,
Dreno diligente do acaso,
Alcança a graça pedida,
Favor outorgado sem prazo.
Cor...

Depois das Chuvas




Depois das chuvas torrentes
Barreiras de lama molhada
Represam virtudes latentes
Em charcos de mágoa parada

No meio das nuvens constantes
Revelam-se formas e bordas
Baías de cores pulsantes
Costuram os rasgos passados
Com fios de alinhavo sem cordas

Depois que os ventos soprarem
E os rumos da vida mudarem
Da brisa virão boas novas
Pintadas num céu radiante
Sem valas, nem pedras, nem covas

Recantos serão desenhados
Colados em planos sonhados
Onde se abrigarão os anjos

Rua




Que rua é essa que não tem saída
Repleta de casas coloridas
Erguidas em alicerces de papel
Estreita e sinuosa alameda 
Sem esquinas e sem calçadas 
De pedras feitas com giz de cera

Que estranha rua torta é essa 
Que trilho com passos curtos sobre as pedras soltas
Que dissolvem as pegadas deixadas pelo caminho
Que rua é essa que não me deixa escolha

Que via sem sentido que não me indica o fim

Deixo então que o tempo me ensine a andar sobre ela
Deixo que a vida me mostre onde devo chegar.

Razão




Quem tem mais razão?
A cabeça
Ou o coração?
A cabeça pensa
O coração faz
A cabeça chama
O coração atrai
A cabeça gosta
O coração ama
A cabeça trai
O coração jamais
A cabeça pira
O coração dispara
A cabeça gira
O coração não
Quem tem mais razão?

Cartas na Mesa




Cartas na mesa
No jogo da vida
Que a cada proeza
Sem gozo nem pena
Reabre a ferida
Não há vencedores
Nem sonhos
Nem dores
Nem azes na manga
Só restam no peito
Saudades contidas
Daqueles que partem
Prevendo a batida
O rei foi embora
A dama só chora
Não há mais saída
No jogo da vida
Cartas na mesa
Mais uma rodada
A mão que embaralha
Renova a esperança
De nova cartada
O rei volta
E a dama não está mais chorando

Mãos


Mãos que curam
Os pés descalços
Os corpos cansados
Os ossos quebrados

Sacrifício

Mãos que cobrem
A carne doente
A mente latente
A veia dormente

Vício

Mãos que tratam
Feridas que abrem
Gemidos que calam
Tecidos que morrem

Ofício

Mãos que falam
E curam 
mais do que a doença do corpo

Maneiras

Para Jaqueline






No dia em que vi teu rosto
Perfil delicado de linhas suaves
Olhar inibido
Sorriso doce e contido
Parei no tempo
Recriando os rabiscos de uma imagem que só eu conhecia
Como um retrato antigo guardado em uma caixa
Que abre na frente da gente
E revela sem causa aparente
A sorte prescrita com tinta invisível
Achei a metade que havia perdido
Em um canto antes escuro do meu passado
Metades unidas
Verdades sabidas
Descobrimos ser frutos do mesmo ramo
De almas paridas no mesmo parto
Legadas ao acerto da nossa sina
Destino cumprido sem pressa
Com doses diárias de sensibilidade
Um sonho contado num dia
Um desejo outra mania
Conexões de pensamentos comuns
Confessados baixinho ao pé do ouvido
Relaxo e te sinto
Ouço feliz a tua voz macia
Trocar a toda hora o meu nome por amor
E assim te vejo
E assim te amo
Bem mais do que ontem
E menos que amanhã